Tentei escrever para você algumas vezes, mas confesso que não foi fácil. As palavras se esgotaram. Qualquer coisa pode soar repetitivo e redundante. Andei repassando o que vivemos nesses últimos tempos e tentando entender o que foi que aconteceu com a gente. Não quero encontrar culpados, longe disso. Não quero mais remexer nessa história que já me remexeu por dentro de forma irremediável. Mas acho que toda boa história de amor, assim como foi a nossa, não pode morrer de inanição. Ela precisa de um pouco mais de água, ou talvez do tiro de misericórdia.
Encontrei você num momento muito particular, em que me sentia plena e feliz dentro das minhas possibilidades. Já havia passado por um sem número de relações vazias, que deram certo por um pequeno espaço de tempo da minha vida e parei de me questionar sobre o que eu poderia fazer para mudar a minha sorte. Ela já não importava mais nesse sentido. Trabalhar, curtir meus amigos e família, me divertir nos tempos livres, me cuidar física e mentalmente estava sendo suficiente. Não me faltava um amor. Paixões eu tinha de sobra e elas me bastavam, por ora.
Aí eu encontrei você. De uma forma errada, talvez, sem cavalos brancos e espada empunhada me prometendo o castelo dos sonhos. Longe disso. Encontrei você e toda a sua pureza de quem viveu a vida dentro do script imposto pela sociedade dita normal. Encontrei você pesado de regras, desejando mais da vida do que o café com pão de todas as manhãs. Encontrei você feliz com o pouco que havia conhecido do corpo, dos sentidos, dos infinitos sentimentos que existem no mundo, mas que você nunca havia se permitido viver até porque nem sonhava existir. E eu fechei os olhos e pulei. Vi em você uma pessoa de verdade, não um par de mãos querendo me consumir como um animal irracional. Vi em você alguém que não fazia idéia do que existia no mundo fora dos portões da sua casa dos sonhos, com cerquinha branca e um cachorro no quintal. E eu te apresentei um mundo novo, um mundo vivo, um mundo em que é possível ser jovem e feliz todos os dias. Um mundo em que amar não é pecado. Te apresentei um Deus misericordioso que sabe perdoar os seus filhos por eles simplesmente terem amado. E embarquei nesse mundo com você, onde o que não nos faltava era coragem de enfrentar o mundo para viver o nosso amor. Você me assumiu diante da sua família, dos seus amigos, eu te trouxe pro meu lado, te apresentei meu mundo e esperei. Simplesmente esperei. Nos prometemos mundos e fundos, coragens infinitas, vivíamos o amor na sua totalidade, sem medo de julgamentos, de barreiras geográficas e financeiras, nada mais era impossível para nós. Estávamos dispostos a deixar todo o nosso passado para trás para viver uma nova página da nossa vida, com promessas de eternidade.
Eu comecei a ver você na minha vida como o meu homem, o meu marido, o pai dos meus filhos, aquele para quem eu me guardava sem saber ao certo se viria. Eu comecei a combinar os nossos nomes e ver como eles ficariam perfeitos juntos. Eu te contei meus sonhos, meus segredos mais íntimos, comecei a enxergar sua morada como minha nova cidade natal. Você me deu prazos, detalhou ações, parecíamos estar sintonizados em cada passo que daríamos em direção à nossa nova vida. E foi aí que nos perdemos de nós mesmos.
Sabe, eu não culpo você. Também não me culpo. Talvez eu seja mesmo boba demais para ainda acreditar que na vida real nem todas as histórias de amor terminam com finais felizes. Talvez eu tenha mesmo acreditado demais em todos os planos que fizemos para nós e o coloquei como foco principal da minha vida. Afinal, ela parou no instante em que eu te conheci. Tudo podia esperar até o dia em que pensaríamos e viveríamos por dois, nunca mais por um só. Nós estávamos inteiros de corpo e alma nessa história e o que nos impedia de ficarmos de fato juntos era só um pouco de coragem de nossa parte. A minha está aqui. Guardada no meu peito, presa no meu pensamento como um plano de ação prático do que precisava mudar para que as coisas acontecessem. Minha mãe, meus irmãos, meus sobrinhos e meus amigos nunca vão deixar de ser meus, e eu entendi isso apesar de saber que a distância vai doer. Mas ter você grudado na minha mão me suportando com tanto amor me fazia ter certeza de que esse era o único caminho a seguir. Não haveria outro.
A sua coragem, não posso dizer. Só você sabe o que se passa no seu coração, no seu pensamento, as cobranças que você tem sentido na pele dentro de casa e até mesmo fora dela, da sua família e dos seus amigos. Só você sabe o que de fato acontece dentro dessas quatro paredes que eu nunca senti que havia invadido, mas que fui convidada a entrar por você. Você me convidou para entrar na sua vida e me intimou a viver uma nova vida com você. Nada aconteceu por pressão ou por acaso, somos responsáveis pelos nossos desejos e pelas nossas atitudes. Eu me despi de pudores, de consciência, entrei num estado de letargia onde só queria acordar quando tudo estivesse como planejamos. Mas a vida me trouxe de volta. E o meu corpo não aguenta mais. Ele reclama em forma de dores que nunca senti, em forma de noites que nunca perdi, em forma de obsessão que nunca imaginei alimentar por coisa alguma. E eu preciso me resgatar de volta.
Hoje eu só queria que você soubesse que eu sinto a cada dia a morte da nossa história se aproximar por total falta de alimento. Em cada mensagem não respondida, em cada resposta seca, em cada tentativa frustrada de manter as coisas vivas, em cada vontade de manter contato, abafada pela necessidade de espaço que surgiu de repente. Eu sei, eu entendo. A mim só resta entender. A sua decisão, que nunca foi maior que a minha, tornou-se grande demais além do que você pode suportar. E eu me despeço de tudo o que vivemos com a certeza de que fiz tudo que podia, que errei mais do que poderia, que me doei mais do que suportaria e que te enviar essa carta vai me dilacerar por dentro como nunca imaginei ser possível. A minha coragem, como sempre te disse, está aqui, inclusive de tomar por você a decisão que só poderia ser sua. Estou saindo da sua vida para tomar a minha de volta certa de que não há arrependimentos, tudo foi movido e guiado pelas mãos do amor. Te deixo livre para fazer o que julgar correto, afinal uma decisão como essa não pode acontecer sob pressão. Não quero exigir você na minha vida. Você tem que querer isso de todo o seu coração. E quem sabe, quando isso acontecer e você novamente me procurar, ainda seja tempo de viver a nossa história. Se isso não acontecer, esteja certo de que o que passamos nunca sairá de nossa memória e se tornará história nos ouvidos de nossos entes queridos, como algo lindo que vivemos, mas que infelizmente não teve força para se tornar realidade. E aí será tarde demais. Só nos restará amargar as memórias de uma vida que nunca teve coragem de ser vivida como deveria.
** Para o Pucus.