Juro que queria começar essa carta dizendo que estou sentada no sofá, na noite de uma dessas quartas-feiras em que costumo ficar sozinha, desejando essa pessoa que nem conheço. Juro que queria fazer desse o prefácio de uma história de amor pré-determinada desde que eu era uma garotinha e não entendia por que haviam coisas estranhas acontecendo com o meu corpo. Confesso que adoraria estar entrando e saindo de lojas de roupinhas guardando coisas especiais para usar um belo dia, naquele que seria o grande amor da minha vida. Mas sabe, há alguns meses eu virei um ponto de interrogação ambulante. E me pego chorando sozinha, escondida na minha fraqueza que não consigo confessar nem para o espelho. Estou envergonhada de sentir tudo isso. Sinto-me quase como uma pecadora desdenhando do maior milagre que Deus concedeu à nós, humanos. Como um peixe que queria ser pescador, a sereia que queria dançar fora das águas, parece-me que preciso de outra coisa pra que esse vão entre eu e meu coração seja desfeito. E fui procurar ajuda, conversar com quem entende mais que eu (ou finge entender), e chorei, chorei, chorei. Lágrimas sem ter por quê. Lágrimas de quem se sente diferente do mundo e parece dever explicação para tudo e para todos. Eu não tenho o direito de simplesmente não te querer. Mas será que isso o que eu quero?