segunda-feira, 30 de junho de 2014

Quando você chegou


Assim como sempre soube que você chegaria em forma de menino quando Deus te colocasse no meu ventre, lá no fundo meu coração de mãe me dizia que você chegaria no meu dia. E inconscientemente preparei sua vinda para esse dia, ansiando que você também desejasse o mesmo. Meus pais chegaram no dia anterior, conforme passagens compradas meses atrás, seguindo a tal intuição. Fomos eu e o seu pai ao supermercado estocar comida para os próximos dias que viriam, apesar de movimentar-se ser algo já bem difícil para mim a essa altura das 39 semanas e alguns dias de gestação. Preparei o jantar para receber seus avós, conversamos até tarde, deitei pouco antes da meia noite e li a última mensagem que um aplicativo qualquer mandara fingindo ser você por todos os dias dessa longa espera: De hoje não passa. E assim aconteceu. Duas e meia da manhã senti a primeira pontada no baixo ventre: arregalei os olhos, peguei o celular para checar o horário e fiquei bem quieta esperando a próxima dor. E elas vieram em oito, sete, cinco minutos sequenciais, cada vez mais fortes, cada vez mais longas. Chamei o papai que me acarinhou na barriga e voltou a dormir, como se estivesse sonhando, afinal, quantas vezes reclamei de dores naqueles últimos dias? Mas dessa vez era diferente, era forte, era você tentando abrir passagem para chegar ao mundo naquele dia, naquela madrugada como eu havia pressentido. Entrei no chuveiro tentando acompanhar aquele plano de parto que tantas vezes li e pesquisei e planejei ao longo desses meses, mas não melhorava, a dor só apertava cada vez mais. Acordei o papai já vestida para sair e pedi que me levasse ao hospital, era a sua hora, era a nossa hora. Todos acordaram rapidamente e em poucos minutos saímos de casa rumo à maternidade. Era madrugada e eu fui olhando a paisagem tentando esquecer as dores, tentando me acalmar e passar pensamentos positivos para você para que tudo acontecesse da maneira mais natural possível. Eu queria ter sido capaz de trazer você ao mundo como num filme, sentindo cada milímetro do seu corpo escorregando do meu naquele misto de dor e alegria que cansei de ler nesses últimos tempos, mas a dilatação ainda era pouca e a dor já era longa e insuportável. Não consegui. Chorei e pedi ajuda, qualquer coisa que me despertasse daquela falta de controle sobre mim e lá fomos nós para a sala de parto 4 horas depois de tudo começar. A picada da anestesia assemelhava-se a uma picada longa de abelha, mas qualquer dor era menor do que a que eu senti até aquele momento. E entrei em um estado de inércia, tudo passou a se mover devagar, meu corpo formigava e pesava 200 quilos, mas eu já não sentia mais dor, inclinei a cabeça em direção ao enorme relógio de parede na minha frente e logo chegou o papai, paramentado com uma roupa laranja, câmera na mão, olhos curiosos, mãos rápidas e sem destino. Foi muito rápido: veio o sono, o enjoo, a emoção. Alguém falou: 07:06 da manhã e procurei o relógio com o olhar. Você chorou. Um chorinho leve, sentido. E alguém te colocou na minha frente pra que eu pudesse te ver. Chorei, bebê. Você que já era parte de mim agora tinha um rosto, uma forma. O papai ficou com você até que te liberassem para que eu pudesse te ver melhor. E a enfermeira te trouxe, caladinho de touca azul e te colocou no meu colo, tão perto que não conseguia focar em seu rosto. Fotos, sorrisos, papai, formigamento, enjoo, lágrimas, fotos, sono. Te colocaram no meu seio e lá você ficou tentando aprender a mamar enquanto eu absorvia aquele momento lutando contra o efeito de toda aquela morfina passeando em mim, que me acalmava, me enjoava, me tirava um pouco do senso de realidade e sonho. Levaram você. Apaguei. Acordei umas cinco horas depois, boca seca, sala escura, cadê todo mundo? E me levaram para te conhecer melhor desta vez, você anjo, vestido de branco e azul, sonado e sereno. Apaixonei-me naquele instante.