quarta-feira, 19 de abril de 2017

Sobre Amor e Tempo

Um relacionamento longo nos faz aprender uma série de coisas sobre o outro, mas principalmente sobre nós mesmos. Quando entramos em uma relação, é claro que estamos apostando todas as nossas fichas para que ela dê certo. E dar certo nada tem a ver com longevidade, mas com construir uma história de carinho, paixão, comprometimento, companherismo, tolerância, respeito. E quando essas coisas existiram e a entrega foi real e verdadeira, mesmo que acabe, podemos bater no peito com orgulho e dizer que o tal relacionamento acabou, mas deu certo pelo período que tinha que dar.
 
Eu aprendi com o tempo que cada um de nós muda um pouquinho todo dia em função desta relação. Vamos nos moldando pra nos ajustarmos ao outro e vice-versa. Tipo ir no cinema assistir filme de super herói com o marido porque ele ama, mesmo que você mal consiga esperar o filme terminar pra sair correndo da sala, ou sei lá, abraçar os amigos dela como se fossem seus, apesar de haver um abismo enorme de diferença de idade entre vocês. Isso é saudável, natural e faz parte de toda relação. O problema está quando isso acontece de forma unilateral ou quando nos anulamos para viver em funcção do outro, para ser perfeito do ponto de vista dele. Aí nos perdemos pelo caminho e a nossa essência fica pra trás. E quando eu digo essência, eu quero dizer todos aqueles detalhes que fazer você ser quem é; o jeito como se veste ou prefere deixar a barba, seu gosto para música, literatura, bebidas, comidas, o comportamento com sua família, o futebol das quartas, a cama compartilhada com a irmã mais nova nos dias mais cinzas. A tolerância em relação aos problemas que enfrentamos todo dia, a educação, os valores, os sonhos. Tudo isso precisa ser partilhado, e se não der, obrigatoriamente respeitado. Imagina se olhar no espelho e não se reconhecer mais naquele corpo? Nem terapia diária resolve.
 
Pra mim, amor que é amor, começa amor desde o primeiro dia. Tem a paixão que é louca no começo e vai esfriando com o tempo, tem a vontade de fazer tudo com o outro e que depois exige individualidade, tem a cilada de aceitar tudo, remediar tudo, relevar grosserias e impaciências e que com o tempo vai se ajustando e tomando o seu lugar. É normal. Mas a admiração, o desejo, a vontade de dividir a vida com aquela outra pessoa, o respeito, a confiança, o comprometimento com aquela relação, esses permanecem, sejam como  for.  Se esse “amar” exige um esforço sobrenatural,  noites sem dormir, e-mails longos e profundos diários pra si mesmo, me desculpe, mas não é amor. Você está se debatendo dentro de uma relação pra que ela dê certo de toda forma. Você está esquecendo a parte mais importante que pauta qualquer relação acima desse “amor” defendido com unhas e dentes, que se chama RESPEITO. Pra mim, a conta é simples: se não tem respeito, não tem vontade de mudar, não tem esforço de ambas as partes, não tem maturidade, sobra o quê?
 
Relacionamentos são trabalhosos, tenho certeza disso. E se o outro está de mãos dadas com você para que esses ajustes aconteçam e vocês possam viver uma relação de entrega total, sem tantas idealizações, mas pautada em vida real, vá em frente. Só não esqueça de uma coisa: não dá pra amar ninguém se não vier primeiro o amor próprio.

domingo, 9 de agosto de 2015

Se eu pudesse falar


A primeira vez que percebi você eu ainda estava na barriga da mamãe. Você tinha uma mania besta de usar o umbigo dela como microfone pra que eu te ouvisse melhor. E não é que eu ouvia mesmo? Ali você falou algumas bobagens, cantou algumas músicas e me mostrou que havia alguma coisa fora daquele mundinho molhado e estranho que eu ficaria durante alguns meses. No dia que eu percebi que aquela barriga estava pequena demais pra mim, eu cutuquei você através da mamãe ainda de madrugada e não pude acreditar quando você voltou pra dormir achando que era mais um dos meus alarmes falsos! Era minha hora pai!!! Cutuquei a mamãe com força e logo depois estávamos lá, com a mamãe aos berros e eu com muita pressa de chegar logo nesse mundo. E quando o mundo veio me puxando com força pra fora da minha casinha e eu dei de cara com aquela luz, eu vi seus olhinhos apertados marejados por me conhecer. Ali eu conheci o meu pai, aquele que seria meu parceiro pra toda vida. E você aprendeu a me banhar e fez daquele o nosso momento diário, pelo qual eu espero toda noite antes de dormir. Me ensinou a ouvir rock de manhã na ida pra escola, me deu uma bola comprida e está tentando me mostrar pra que ela funciona, me mostrou suas músicas, suas brincadeiras, seu mundo que no futuro será igual o meu. Aprendeu a me trocar, a me alimentar, mas ainda não me ouve quando eu preciso de você de madrugada... graças a Deus que eu também tenho a mamãe nesssas horas!
Pai, eu só tenho um aninho, ainda não sei falar seu nome, mas demonstro meu amor por você esticando os bracinhos quando você vem me buscar na escola ou quando me aninho nos seus braços na hora do sono. Não sei como era antes de eu chegar, mas hoje eu vejo você chorar tão fácil por qualquer coisa que me diga respeito.... meu pai é um manteiga derretida, quem diria? Eu nasci com seus olhinhos apertados, seu cabelo liso, sua inquietude, seu carisma e sua eterna disposição em viver a vida intensamente. E sabe o que eu mais quero? Que o futuro chegue rápido pra que possamos jogar bola juntos, ir no parque aos sábados, andar de bicicleta, conhecer o mundo com você que não tem medo de quase nada. Obrigado, pai, tenho certeza que se eu soubesse falar e escrever hoje, era isso que eu queria que você soubesse.

Feliz dia dos pais! Te amo!
 

Alexandre (e mamãe) ;)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Puerpério

Nada que os livros, revistas ou programas de TV possam mostrar, nada que seu médico possa te esclarecer em cada consulta, nada que sua mãe, sua irmã, sua sogra ou sua melhor amiga possa te alertar: nada te prepara para esse momento. E não é o choro cronometrado dias seguidos, não é o seio ferido tentando expulsar o alimento perfeito, não é o corpo deformado da brutalidade sofrida, não é a dor no baixo ventre de um corte profundo sete camadas adentrando seu corpo. É uma dor na alma. É uma alegria, um pavor, um cansaço beirando a exaustão, uma felicidade sem fim, uma perfeição, um erro. É assim mesmo, tudo se contrapondo e se contradizendo a cada minuto. É um medo dentro do peito de estar errada, de agir errado, de não saber o que fazer na hora certa. É uma vontade de dormir dias inteiros e só acordar quando você souber me dizer o que precisa. É um desejo insano de pular daqui desta janela pra ouvir outra coisa que não seja seu destempero em fazer parte deste mundo que você não tem idéia da dimensão. E eu quis que o mundo parasse pra me abraçar enquanto eu chorava todas as manhãs. Eu quis adiantar o relógio, apressar o calendário, preencher os meus dias com qualquer outra coisa mais egoísta. Eu quis um manual de instruções mágico que decifrasse cada pedaço de você e devolvesse o meu senso normal. Eu quis um banho longo, uma noite inteira de sono, um sorriso seu assim, do nada, pra me trazer um pouco de lucidez nesta loucura que eu não podia suportar. Mas os banhos eram curtos, as noites se misturavam aos dias que nunca terminavam e você ainda não sabia sorrir; seus espasmos involuntários aqueciam meu coração amargo que não conseguia se reconhecer. Mas o tempo passou, todos voltaram para suas vidas e restou só eu e você. O momento que eu mais temi, eu e você precisando se entender pra que a vida seguisse. E ali eu percebi que eu precisava ser forte, que o meu tempo de ser frágil havia ficado pra trás, que eu não ia me deixar vencer por um ser tão pequenino que só precisava de atenção. E engoli o choro cada vez que te alimentava, respirei fundo um sem-número de vezes quando você me chamava no meio da noite, paralisei meu corpo pra te acolher naquelas noites em que você só dormia no meu abraço. E a mãe que eu pedi pra ser tempos atrás foi nascendo aos poucos, no meio de cada adversidade que só eu podia ultrapassar. Você está crescendo cada dia mais forte, mais esperto, já me acompanha com os olhos, já sabe me jogar um sorriso depois de uma noite difícil. E eu estou aqui. Entendendo o real significado da expressão 'amor incondicional'.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Quando você chegou


Assim como sempre soube que você chegaria em forma de menino quando Deus te colocasse no meu ventre, lá no fundo meu coração de mãe me dizia que você chegaria no meu dia. E inconscientemente preparei sua vinda para esse dia, ansiando que você também desejasse o mesmo. Meus pais chegaram no dia anterior, conforme passagens compradas meses atrás, seguindo a tal intuição. Fomos eu e o seu pai ao supermercado estocar comida para os próximos dias que viriam, apesar de movimentar-se ser algo já bem difícil para mim a essa altura das 39 semanas e alguns dias de gestação. Preparei o jantar para receber seus avós, conversamos até tarde, deitei pouco antes da meia noite e li a última mensagem que um aplicativo qualquer mandara fingindo ser você por todos os dias dessa longa espera: De hoje não passa. E assim aconteceu. Duas e meia da manhã senti a primeira pontada no baixo ventre: arregalei os olhos, peguei o celular para checar o horário e fiquei bem quieta esperando a próxima dor. E elas vieram em oito, sete, cinco minutos sequenciais, cada vez mais fortes, cada vez mais longas. Chamei o papai que me acarinhou na barriga e voltou a dormir, como se estivesse sonhando, afinal, quantas vezes reclamei de dores naqueles últimos dias? Mas dessa vez era diferente, era forte, era você tentando abrir passagem para chegar ao mundo naquele dia, naquela madrugada como eu havia pressentido. Entrei no chuveiro tentando acompanhar aquele plano de parto que tantas vezes li e pesquisei e planejei ao longo desses meses, mas não melhorava, a dor só apertava cada vez mais. Acordei o papai já vestida para sair e pedi que me levasse ao hospital, era a sua hora, era a nossa hora. Todos acordaram rapidamente e em poucos minutos saímos de casa rumo à maternidade. Era madrugada e eu fui olhando a paisagem tentando esquecer as dores, tentando me acalmar e passar pensamentos positivos para você para que tudo acontecesse da maneira mais natural possível. Eu queria ter sido capaz de trazer você ao mundo como num filme, sentindo cada milímetro do seu corpo escorregando do meu naquele misto de dor e alegria que cansei de ler nesses últimos tempos, mas a dilatação ainda era pouca e a dor já era longa e insuportável. Não consegui. Chorei e pedi ajuda, qualquer coisa que me despertasse daquela falta de controle sobre mim e lá fomos nós para a sala de parto 4 horas depois de tudo começar. A picada da anestesia assemelhava-se a uma picada longa de abelha, mas qualquer dor era menor do que a que eu senti até aquele momento. E entrei em um estado de inércia, tudo passou a se mover devagar, meu corpo formigava e pesava 200 quilos, mas eu já não sentia mais dor, inclinei a cabeça em direção ao enorme relógio de parede na minha frente e logo chegou o papai, paramentado com uma roupa laranja, câmera na mão, olhos curiosos, mãos rápidas e sem destino. Foi muito rápido: veio o sono, o enjoo, a emoção. Alguém falou: 07:06 da manhã e procurei o relógio com o olhar. Você chorou. Um chorinho leve, sentido. E alguém te colocou na minha frente pra que eu pudesse te ver. Chorei, bebê. Você que já era parte de mim agora tinha um rosto, uma forma. O papai ficou com você até que te liberassem para que eu pudesse te ver melhor. E a enfermeira te trouxe, caladinho de touca azul e te colocou no meu colo, tão perto que não conseguia focar em seu rosto. Fotos, sorrisos, papai, formigamento, enjoo, lágrimas, fotos, sono. Te colocaram no meu seio e lá você ficou tentando aprender a mamar enquanto eu absorvia aquele momento lutando contra o efeito de toda aquela morfina passeando em mim, que me acalmava, me enjoava, me tirava um pouco do senso de realidade e sonho. Levaram você. Apaguei. Acordei umas cinco horas depois, boca seca, sala escura, cadê todo mundo? E me levaram para te conhecer melhor desta vez, você anjo, vestido de branco e azul, sonado e sereno. Apaixonei-me naquele instante.

domingo, 13 de abril de 2014

O Mundo é Azul

Lá pela décima oitava semana eu comecei a sentir. Mas não sabia direito ainda se era você ou se eram apenas os movimentos peristálticos de toda digestão. Eu esperei algo mais claro, mais mágico, e essa sensação só veio duas semanas depois, quando percebi que os seus chutinhos começariam a fazer parte da nossa relação. E aí eu ficava bem atenta cada vez que me aquietava em algum canto, porque eu sabia que logo sentiria você se acomodando dentro de mim em um movimento ainda lento e sutil que me causava um pouco de cócegas, estranhamento e muito da emoção represada em mim por algum motivo. O seu pai começou a conversar com você pelo meu umbigo, como se ele fosse alguma espécie de microfone, sabe, como se o som que ele emitisse ali chegasse mais claro até você. E quando você ficava, sei lá, umas duas horas sem se mover já me plantava uma pulga atrás da orelha com medo que algo estivesse te acontecendo aqui dentro que eu não pudesse ver ou sentir. E o seu pai, bobo como sempre, balançava minha barriga de um lado pro outro tentando te acordar do soninho do momento, até que você desse algum sinal de vida e acalmasse nosso coração ainda tão novo pra administrar tudo que está acontecendo.
Sabe, eu não lembro mais quem eu era antes disso tudo começar, sinto saudades de uma meia dúzia de coisas bobas que percebi não fazerem diferença na minha vida. Só sei que já sinto um medo danado de alguma coisa te acontecer, principalmente por minha culpa, seja por algo que eu comi ou bebi, por algum comportamento não recomendado, por me expor ao mundo que vai te receber em algumas semanas, como se ele fosse grande demais pra acolher suavemente um serzinho tão frágil como você. O pânico que sinto cada vez que cruzo o portão da minha casa sem ninguém para me segurar se eu ameaçar cair na primeira esquina, é resposta de algo bem maior que está acontecendo aqui dentro de mim há algumas semanas e que eu estava levando como algo paralelo. O fato é que você ocupou todos os meus espaços, esticou minha barriga a um nível nunca visto, subiu os ponteiros da balança da farmácia a nada que eu possa comparar, mexeu com minha cabeça tão prática e objetiva e me transformou num pote de manteiga esquecido em cima da mesa. Minha sensibilidade sempre tão à flor da pele se transformou em fragilidade e hoje tenho medos que nunca imaginei que deixaria entrar na minha vida. Meu mundo cor de rosa cheio de irmãs, sobrinhas, amigas e gatinhas de estimação foi se tornando azul um pouco a cada dia, primeiro nas roupinhas que começamos a escolher, depois no quarto, nos móveis, em cada detalhe que estamos preparando pra te receber. E é tão estranho, sabe, quando pego suas roupinhas tão pequenas e frágeis e levanto diante dos meus olhos, eu sempre me pergunto se vou saber o que fazer quando tiver que colocar você dentro dela, se vai ser natural como todos me dizem que será ou se vou chorar uma meia dúzia de vezes com medo de te machucar. E eu fico olhando aqueles brinquedos e imaginando como eu, tão mulherzinha que sou, vou conseguir sentar no chão com você e brincar de luta, de bola, de bonecos e de todas essas brincadeiras do universo masculino que nunca fizeram parte da minha vida. Seu pai sempre me acalma e fala que está aqui pra me ajudar com isso. E eu só consigo pensar em como será. 
Meu amor, hoje, dez semanas depois que comecei a te sentir dentro de mim não existe um só minuto que eu consiga levar minha vida paralelamente à sua existência, porque tudo que eu faço me remete ao que será melhor para você. Seu chutinho suave e sutil se transformou em algo muito maior que me traz sentimentos contraditórios, que me machuca e me acalma, me incomoda e me alivia a alma, porque sei que enquanto eu senti-los estará tudo bem por aqui. Dormir já não é mais como antes e sei que nunca mais será, assim como viver ou respirar, porque nada mais acontece sem que você seja parte. E eu só consigo tentar me preparar de alguma forma, através dos meus livros e da troca de experiências com quem já passou por isso para me tornar a mãe que você precisa que eu seja, sem tantas lágrimas e mimimis, sabendo exatamente o que fazer na hora certa. E que Deus me ajude nessa jornada.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Pequeno Alexandre e o Grande


Quando minha sobrinha Júlia nasceu, há quase oito anos, eu vivia uma fase meio egoísta da vida. Estava num emprego legal, ganhava mais que o esperado, ajudava minha família, mas queria mesmo era me divertir. Nunca havia pensado em casamento, filhos e todo aquele pacote do qual muitas meninas sonham desde cedo. Mas aí, no dia em que vi Júlia pela primeira vez, senti lá no fundo do meu coração que alguma coisa se modificava dentro de mim. Um instinto, um desejo adormecido, não sei explicar, eu só sei que quis ter aquela felicidade para mim em algum momento da minha vida. Nada poderia substituir a magia de ver uma criança crescendo um pouquinho a cada dia e te amando de uma maneira que nada no mundo poderia se comparar.  E ali eu soube que um dia eu seria mãe, de um filho meu ou de outro alguém, mas eu sabia que um dia eu teria alguém pra cuidar até que a vida lhe concedesse suas próprias asas. E seria homem. Seria um menininho de cabelo tigelinha pra quem eu ensinaria a cultura da minha família, meus valores, meus gostos pessoais, todas aquelas coisas que a gente sonha em um dia passar pra alguém. E quando meu casamento veio, meus sonhos se misturaram aos do meu marido. Ele me contou do seu amor pelas crianças e do desejo profundo de ter um filho e ainda de uma bela amizade que contaria a história do nome dessa criança. E naquele dia, meu filho de cabelo tigelinha ganhou um nome que eu nunca poderia contestar, porque ele carregava consigo uma bagagem de carinho, amizade e cumplicidade dividida entre o Hauryk e o Alexandre “Índio”, que se foi tragicamente cedo demais, mas que nunca saiu do coração de quem o conheceu.  
E como nada na vida acontece por acaso, ontem tivemos a certeza de que meu bebê é um menino, assim como sempre soubemos que seria. E no mesmo dia, em outra situação, tive a chance de conhecer através de uma fotografia antiga o dono dessa bela história.
E assim começa a história do meu Alexandre, meu menino, que já vem ao mundo abençoado por alguém muito especial. Seja bem vindo, meu filho.
 

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A História de um Bebê

Decidir ter um filho não é tarefa fácil. Bate aquele medo de não saber como cuidar, de como educar, do que ensinar para aquela criança que terá a mim como referência de vida. Pinta aquela preguiça de todas as noites em claro que virão, o sono da noite que nunca mais será o mesmo pelo menos enquanto eu viver. Surge de lá de dentro aquele egoísmo pesado de pensar em abrir mão de todos os meus sonhos individuais em troca dos sonhos dele. E aí eu tive medo de não ter uma criança perfeita, de que meu casamento não resistisse a um filho, de não ser a mãe que eu precisava ser pro serzinho que ainda nem morava em mim, mas que já estava rodeando os meus pensamentos há um tempo. E eu conversei com amigos com e sem filhos, com amigas queridas, com a terapeuta, com a colega de trabalho, até com quem eu não conhecia, sempre tentando encontrar aquela resposta definitiva que sanaria todas as minhas dúvidas e supriria todos os meus anseios. E eu li um sem número de livros, o google já não sabia mais como me ajudar a pesquisar o que eu queria encontrar, peguei revistas e artigos sem fim e nada, nada trazia a tal resposta perfeita.
E aí eu fechei os olhos e rezei. Rezei pra Nossa Senhora Aparecida lá de dentro do templo dela e só pedi que ela acalmasse o meu coração e me trouxesse a plenitude que eu precisava encontrar para ser a mãe que eu queria ser. E como não há nada que você peça de todo o seu coração que Deus não te conceda, dia após dia aquela transformação que eu esperava foi acontecendo calmamente dentro de mim, me preparando para o que haveria de vir. E meses depois, mesmo sem mais pedir, mesmo sem esperar, um exame de farmácia me trouxe a notícia mais temida e mais feliz que eu já recebi na vida: eu vou ser mãe.
E antes que você me pergunte, não eu não encontrei a resposta que eu queria ouvir e hoje eu sei que ela nunca virá. Ainda não sei se saberei cuidar dele, não tenho certeza do que vou querer ensiná-lo, nem imagino se vou suportar todas as noites em claro embaladas por um choro, não sei se ele virá perfeito, tampouco se meu marido ainda vai me amar ao final desses nove meses e além disso. Mas de uma coisa eu tenho certeza: de que eu já sinto um amor enorme se movendo dentro de mim, amor esse que nunca imaginei sentir. E o mais importante: esse amor que vai me trazer a força que eu preciso para ser a mãe que eu quero ser.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Quando nasce uma mãe

Dizem que você se sente mãe no momento em que descobre que tem um ser crescendo dentro de você. Comigo não foi assim. Na verdade minha vida mudou desde aquele instante em que as duas listrinhas vermelhas apareceram pra mim. Eu não podia mais beber, comer bobagem, escolher quando dormir, chorar quando estivesse triste, eu já não tinha mais controle do meu corpo e das minhas emoções, as coisas simplesmente aconteciam sem que eu conseguisse explicar por que. Mas me sentir mãe mesmo, acho que nem quando eu vi o feijãozinho piscando na tela da ultrassonografia: eu me senti coadjuvante de um milagre divino. Entender como duas células vão se transformando em uma pessoa assim, de carne, osso e sentimentos, vai além da nossa capacidade intelectual. É coisa que só Deus explica. Eu acho que a mãe nasceu dentro de mim junto com aquela primeira lágrima não explicada descendo do meu rosto, no momento em que aquele médico me olhou com olhos de dúvida e me falou que era melhor procurar um hospital para explicar aquele conjunto de coisas que eu estava sentindo. E eu chorei copiosamente de medo, puro medo de que meu filho fosse embora antes mesmo de chegar. E meu coração não se acalmou enquanto não vi a imagem dele no ultrassom, saudável e ativo, crescendo mais rápido do que eu poderia imaginar. Ele girava em torno dele mesmo com sua coluna cervical brilhante e seus bracinhos e perninhas ainda curtos, mas já tão rápidos e vivos. Ali eu entendi que a mãe que eu preciso ser já existe. E ela sofreu de medo só com a possibilidade de perder aquele serzinho que ela nunca viu diante dos olhos, mas que é parte dela como nada nunca foi na vida. E ali nasceu uma mãe. Para nunca mais voltar.
 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Coraçãozinho

E aí a ficha caiu. Uma coisa é fazer xixi num copinho, mergulhar uma fitinha lá e interpretar que duas linhas vermelhas juntas significa que tem alguém nascendo dentro da sua barriga. Uma coisa é colher um pouco de sangue e saber que aqueles números todos um ao lado do outro quer dizer que seu corpo está produzindo um hormônio que só produziria se tivesse um bebê dentro dele. Outra coisa é ver. Eu até esqueci que estava sentada em uma cadeira ginecológica, seminua, com um homem desconhecido sentado ao meu lado mexendo um transdutor bem no meio das minhas pernas. Eu só olhei pro monitor à minha frente, coração disparado, e esperei. Logo ele me explicou que aquela sombra mais escura era o saco gestacional, a bolsinha que ia abrigar o bebê ao longo da gestação e que aquela bolinha branca no canto direito da tela era ele. Meu bebê. Ele parece um feijãozinho, sabe, tem aquele formato comprido e arredondado e pisca bem no meio do seu corpinho. E aí o médico falou: "Quer ver o mais legal desse exame?" Eu não conseguia tirar o sorriso bobo da cara e só balancei a cabeça dizendo que sim. E ele logo aumentou o volume para eu ouvir o melhor som que ouvira em toda a minha vida: o coração dele. Batia rápido, muito rápido, num compasso ritmado, continuado. Escorreguei minha mão esquerda para o lado e peguei na mão do meu marido que olhava para a tela tão paralisado quanto eu. E naquele momento eu entendi que era verdade, que embora minha barriga ainda estivesse tão igual a sempre, os enjôos não tenham me acometido no meio das refeições e tudo pareça ser o mesmo de antes, nunca mais será. Meu bebê existe e está aqui, crescendo saudável (graças a Deus!) dentro de mim um pouco a cada dia. Agora é de verdade, eu preciso viver essas 40 semanas sabendo que elas serão únicas e que ao final delas eu receberei o melhor presente de todos os existentes.
Saímos de lá meio pasmos, embasbacados, olhamos um para o outro buscando alguma explicação para aquele turbilhão de sentimentos que nos invadiam ao mesmo tempo, meio sem saber se estamos prontos para aquilo ou se um dia estaremos. Ele diz que sim. Eu acho que eu nasci pronta, mas demorei pra entender que havia uma mãe adormecida dentro de mim. Fiz até terapia pra descobrir o que eu realmente queria, se estava lidando com um caso de egoísmo extremo ou tudo era apenas medo de dar um passo adiante. A verdade é que eu deixei a decisão ao cargo da natureza e não me arrependo da minha escolha. Pensando bem, eu sempre fui meio mãe de todo mundo, desde que me entendo por gente me vi querendo cuidar das pessoas que eu amo, do meu jeito, trazendo todo mundo pra debaixo das minhas saias num instinto de proteção. Escolhi ser mãe dos meus pais e absorver deles grande parte dos problemas, porque julguei aguentar mais do que eles. Escolhi ser mãe das minhas irmãs e me envolvi nas suas escolhas, nos seus caminhos, opinei, discordei, briguei, ajudei, patrocinei, comemorei junto com elas no final. Escolhi ser mãe dos meus gatos e experimentei o protecionismo e a desconfiança de que todas as outras pessoas pudessem lhe fazer mal. Escolhi ser mãe do meu marido, cuidando da sua roupa, do seu jantar, dos seus exames de saúde, das suas dúvidas, anseios e de todas as alegrias. É, eu acho que nasci pra ser mãe. Mas agora, vai ser de verdade. Logo logo vai existir um serzinho frágil e totalmente dependente de mim que vai vir mais para me ensinar do que o contrário. Com ele, o que ainda havia de egoísmo dentro de mim vai pelos ares e vou experimentar algo muito diferente de tudo que já passou aqui por dentro. Eu sei. Mas mal posso esperar que esse dia chegue.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Seis Semanas

O engraçado é que não me sinto grávida. É claro que sinto que tem alguma coisa acontecendo aqui dentro, alguma coisa que me deixa com muito sono o dia inteiro e que me causa leves cólicas no baixo ventre. Mas o fato da ausência de enjoos me deixa com aquela sensação de que não é comigo, sabe? Eu quero ver. Quero ver a imagem da tal bolinha no ultrassom, quero ouvir o coraçãozinho batendo mais rápido que o normal, quero sentir minha barriga crescer a cada dia. Quero sentir aquela sensibilidade que vai me fazer chorar a cada fraldinha que eu ganhar e que não vai me deixar pensar em mais nada, só nele. Quero poder visitar cada amiga querida e contar a notícia olhando no olho, esperando aquele abraço de felicidade pela minha felicidade, que é a melhor que existe. Essa coisa de estar longe das pessoas que se ama é complicado, contar pra minha família por telefone não teve o mesmo brilho. Nunca vou saber a feição da minha mãe falando pro meu pai, comigo ainda na linha, que "Vanessa está esperando um bebê". Nunca vou ter certeza se ela estava chorando ao receber a notícia ou se a ligação falhou nesse momento. Nunca vou guardar a imagem do meu pai, pulando do sofá, perguntando se vai ser avô novamente. Só posso imaginar. Por enquanto só consigo ansiar com o dia 13 que há de vir, dia em que vou começar a sentir. E depois esperar, só esperar, enquanto tudo muda aqui fora e principalmente aqui dentro.