Assim como sempre soube que você
chegaria em forma de menino quando Deus te colocasse no meu ventre, lá no fundo
meu coração de mãe me dizia que você chegaria no meu dia. E inconscientemente
preparei sua vinda para esse dia, ansiando que você também desejasse o mesmo.
Meus pais chegaram no dia anterior, conforme passagens compradas meses atrás,
seguindo a tal intuição. Fomos eu e o seu pai ao supermercado estocar comida
para os próximos dias que viriam, apesar de movimentar-se ser algo já bem
difícil para mim a essa altura das 39 semanas e alguns dias de gestação.
Preparei o jantar para receber seus avós, conversamos até tarde, deitei pouco
antes da meia noite e li a última mensagem que um aplicativo qualquer mandara
fingindo ser você por todos os dias dessa longa espera: De hoje não passa. E
assim aconteceu. Duas e meia da manhã senti a primeira pontada no baixo ventre:
arregalei os olhos, peguei o celular para checar o horário e fiquei bem quieta
esperando a próxima dor. E elas vieram em oito, sete, cinco minutos
sequenciais, cada vez mais fortes, cada vez mais longas. Chamei o papai que me
acarinhou na barriga e voltou a dormir, como se estivesse sonhando, afinal,
quantas vezes reclamei de dores naqueles últimos dias? Mas dessa vez era
diferente, era forte, era você tentando abrir passagem para chegar ao mundo
naquele dia, naquela madrugada como eu havia pressentido. Entrei no chuveiro
tentando acompanhar aquele plano de parto que tantas vezes li e pesquisei e
planejei ao longo desses meses, mas não melhorava, a dor só apertava cada vez
mais. Acordei o papai já vestida para sair e pedi que me levasse ao hospital,
era a sua hora, era a nossa hora. Todos acordaram rapidamente e em poucos
minutos saímos de casa rumo à maternidade. Era madrugada e eu fui olhando a
paisagem tentando esquecer as dores, tentando me acalmar e passar pensamentos
positivos para você para que tudo acontecesse da maneira mais natural possível.
Eu queria ter sido capaz de trazer você ao mundo como num filme, sentindo cada
milímetro do seu corpo escorregando do meu naquele misto de dor e alegria que
cansei de ler nesses últimos tempos, mas a dilatação ainda era pouca e a dor já
era longa e insuportável. Não consegui. Chorei e pedi ajuda, qualquer coisa que
me despertasse daquela falta de controle sobre mim e lá fomos nós para a sala de
parto 4 horas depois de tudo começar. A picada da anestesia assemelhava-se a
uma picada longa de abelha, mas qualquer dor era menor do que a que eu senti
até aquele momento. E entrei em um estado de inércia, tudo passou a se mover
devagar, meu corpo formigava e pesava 200 quilos, mas eu já não sentia mais
dor, inclinei a cabeça em direção ao enorme relógio de parede na minha frente e
logo chegou o papai, paramentado com uma roupa laranja, câmera na mão, olhos
curiosos, mãos rápidas e sem destino. Foi muito rápido: veio o sono, o enjoo, a
emoção. Alguém falou: 07:06 da manhã e procurei o relógio com o olhar. Você
chorou. Um chorinho leve, sentido. E alguém te colocou na minha frente pra que
eu pudesse te ver. Chorei, bebê. Você que já era parte de mim agora tinha um
rosto, uma forma. O papai ficou com você até que te liberassem para que eu
pudesse te ver melhor. E a enfermeira te trouxe, caladinho de touca azul e te
colocou no meu colo, tão perto que não conseguia focar em seu rosto. Fotos,
sorrisos, papai, formigamento, enjoo, lágrimas, fotos, sono. Te colocaram no
meu seio e lá você ficou tentando aprender a mamar enquanto eu absorvia aquele
momento lutando contra o efeito de toda aquela morfina passeando em mim, que me
acalmava, me enjoava, me tirava um pouco do senso de realidade e sonho. Levaram
você. Apaguei. Acordei umas cinco horas depois, boca seca, sala escura, cadê
todo mundo? E me levaram para te conhecer melhor desta vez, você anjo, vestido
de branco e azul, sonado e sereno. Apaixonei-me naquele instante.
Nenhum comentário:
Postar um comentário