domingo, 13 de abril de 2014

O Mundo é Azul

Lá pela décima oitava semana eu comecei a sentir. Mas não sabia direito ainda se era você ou se eram apenas os movimentos peristálticos de toda digestão. Eu esperei algo mais claro, mais mágico, e essa sensação só veio duas semanas depois, quando percebi que os seus chutinhos começariam a fazer parte da nossa relação. E aí eu ficava bem atenta cada vez que me aquietava em algum canto, porque eu sabia que logo sentiria você se acomodando dentro de mim em um movimento ainda lento e sutil que me causava um pouco de cócegas, estranhamento e muito da emoção represada em mim por algum motivo. O seu pai começou a conversar com você pelo meu umbigo, como se ele fosse alguma espécie de microfone, sabe, como se o som que ele emitisse ali chegasse mais claro até você. E quando você ficava, sei lá, umas duas horas sem se mover já me plantava uma pulga atrás da orelha com medo que algo estivesse te acontecendo aqui dentro que eu não pudesse ver ou sentir. E o seu pai, bobo como sempre, balançava minha barriga de um lado pro outro tentando te acordar do soninho do momento, até que você desse algum sinal de vida e acalmasse nosso coração ainda tão novo pra administrar tudo que está acontecendo.
Sabe, eu não lembro mais quem eu era antes disso tudo começar, sinto saudades de uma meia dúzia de coisas bobas que percebi não fazerem diferença na minha vida. Só sei que já sinto um medo danado de alguma coisa te acontecer, principalmente por minha culpa, seja por algo que eu comi ou bebi, por algum comportamento não recomendado, por me expor ao mundo que vai te receber em algumas semanas, como se ele fosse grande demais pra acolher suavemente um serzinho tão frágil como você. O pânico que sinto cada vez que cruzo o portão da minha casa sem ninguém para me segurar se eu ameaçar cair na primeira esquina, é resposta de algo bem maior que está acontecendo aqui dentro de mim há algumas semanas e que eu estava levando como algo paralelo. O fato é que você ocupou todos os meus espaços, esticou minha barriga a um nível nunca visto, subiu os ponteiros da balança da farmácia a nada que eu possa comparar, mexeu com minha cabeça tão prática e objetiva e me transformou num pote de manteiga esquecido em cima da mesa. Minha sensibilidade sempre tão à flor da pele se transformou em fragilidade e hoje tenho medos que nunca imaginei que deixaria entrar na minha vida. Meu mundo cor de rosa cheio de irmãs, sobrinhas, amigas e gatinhas de estimação foi se tornando azul um pouco a cada dia, primeiro nas roupinhas que começamos a escolher, depois no quarto, nos móveis, em cada detalhe que estamos preparando pra te receber. E é tão estranho, sabe, quando pego suas roupinhas tão pequenas e frágeis e levanto diante dos meus olhos, eu sempre me pergunto se vou saber o que fazer quando tiver que colocar você dentro dela, se vai ser natural como todos me dizem que será ou se vou chorar uma meia dúzia de vezes com medo de te machucar. E eu fico olhando aqueles brinquedos e imaginando como eu, tão mulherzinha que sou, vou conseguir sentar no chão com você e brincar de luta, de bola, de bonecos e de todas essas brincadeiras do universo masculino que nunca fizeram parte da minha vida. Seu pai sempre me acalma e fala que está aqui pra me ajudar com isso. E eu só consigo pensar em como será. 
Meu amor, hoje, dez semanas depois que comecei a te sentir dentro de mim não existe um só minuto que eu consiga levar minha vida paralelamente à sua existência, porque tudo que eu faço me remete ao que será melhor para você. Seu chutinho suave e sutil se transformou em algo muito maior que me traz sentimentos contraditórios, que me machuca e me acalma, me incomoda e me alivia a alma, porque sei que enquanto eu senti-los estará tudo bem por aqui. Dormir já não é mais como antes e sei que nunca mais será, assim como viver ou respirar, porque nada mais acontece sem que você seja parte. E eu só consigo tentar me preparar de alguma forma, através dos meus livros e da troca de experiências com quem já passou por isso para me tornar a mãe que você precisa que eu seja, sem tantas lágrimas e mimimis, sabendo exatamente o que fazer na hora certa. E que Deus me ajude nessa jornada.