terça-feira, 19 de agosto de 2014

O Puerpério

Nada que os livros, revistas ou programas de TV possam mostrar, nada que seu médico possa te esclarecer em cada consulta, nada que sua mãe, sua irmã, sua sogra ou sua melhor amiga possa te alertar: nada te prepara para esse momento. E não é o choro cronometrado dias seguidos, não é o seio ferido tentando expulsar o alimento perfeito, não é o corpo deformado da brutalidade sofrida, não é a dor no baixo ventre de um corte profundo sete camadas adentrando seu corpo. É uma dor na alma. É uma alegria, um pavor, um cansaço beirando a exaustão, uma felicidade sem fim, uma perfeição, um erro. É assim mesmo, tudo se contrapondo e se contradizendo a cada minuto. É um medo dentro do peito de estar errada, de agir errado, de não saber o que fazer na hora certa. É uma vontade de dormir dias inteiros e só acordar quando você souber me dizer o que precisa. É um desejo insano de pular daqui desta janela pra ouvir outra coisa que não seja seu destempero em fazer parte deste mundo que você não tem idéia da dimensão. E eu quis que o mundo parasse pra me abraçar enquanto eu chorava todas as manhãs. Eu quis adiantar o relógio, apressar o calendário, preencher os meus dias com qualquer outra coisa mais egoísta. Eu quis um manual de instruções mágico que decifrasse cada pedaço de você e devolvesse o meu senso normal. Eu quis um banho longo, uma noite inteira de sono, um sorriso seu assim, do nada, pra me trazer um pouco de lucidez nesta loucura que eu não podia suportar. Mas os banhos eram curtos, as noites se misturavam aos dias que nunca terminavam e você ainda não sabia sorrir; seus espasmos involuntários aqueciam meu coração amargo que não conseguia se reconhecer. Mas o tempo passou, todos voltaram para suas vidas e restou só eu e você. O momento que eu mais temi, eu e você precisando se entender pra que a vida seguisse. E ali eu percebi que eu precisava ser forte, que o meu tempo de ser frágil havia ficado pra trás, que eu não ia me deixar vencer por um ser tão pequenino que só precisava de atenção. E engoli o choro cada vez que te alimentava, respirei fundo um sem-número de vezes quando você me chamava no meio da noite, paralisei meu corpo pra te acolher naquelas noites em que você só dormia no meu abraço. E a mãe que eu pedi pra ser tempos atrás foi nascendo aos poucos, no meio de cada adversidade que só eu podia ultrapassar. Você está crescendo cada dia mais forte, mais esperto, já me acompanha com os olhos, já sabe me jogar um sorriso depois de uma noite difícil. E eu estou aqui. Entendendo o real significado da expressão 'amor incondicional'.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Quando você chegou


Assim como sempre soube que você chegaria em forma de menino quando Deus te colocasse no meu ventre, lá no fundo meu coração de mãe me dizia que você chegaria no meu dia. E inconscientemente preparei sua vinda para esse dia, ansiando que você também desejasse o mesmo. Meus pais chegaram no dia anterior, conforme passagens compradas meses atrás, seguindo a tal intuição. Fomos eu e o seu pai ao supermercado estocar comida para os próximos dias que viriam, apesar de movimentar-se ser algo já bem difícil para mim a essa altura das 39 semanas e alguns dias de gestação. Preparei o jantar para receber seus avós, conversamos até tarde, deitei pouco antes da meia noite e li a última mensagem que um aplicativo qualquer mandara fingindo ser você por todos os dias dessa longa espera: De hoje não passa. E assim aconteceu. Duas e meia da manhã senti a primeira pontada no baixo ventre: arregalei os olhos, peguei o celular para checar o horário e fiquei bem quieta esperando a próxima dor. E elas vieram em oito, sete, cinco minutos sequenciais, cada vez mais fortes, cada vez mais longas. Chamei o papai que me acarinhou na barriga e voltou a dormir, como se estivesse sonhando, afinal, quantas vezes reclamei de dores naqueles últimos dias? Mas dessa vez era diferente, era forte, era você tentando abrir passagem para chegar ao mundo naquele dia, naquela madrugada como eu havia pressentido. Entrei no chuveiro tentando acompanhar aquele plano de parto que tantas vezes li e pesquisei e planejei ao longo desses meses, mas não melhorava, a dor só apertava cada vez mais. Acordei o papai já vestida para sair e pedi que me levasse ao hospital, era a sua hora, era a nossa hora. Todos acordaram rapidamente e em poucos minutos saímos de casa rumo à maternidade. Era madrugada e eu fui olhando a paisagem tentando esquecer as dores, tentando me acalmar e passar pensamentos positivos para você para que tudo acontecesse da maneira mais natural possível. Eu queria ter sido capaz de trazer você ao mundo como num filme, sentindo cada milímetro do seu corpo escorregando do meu naquele misto de dor e alegria que cansei de ler nesses últimos tempos, mas a dilatação ainda era pouca e a dor já era longa e insuportável. Não consegui. Chorei e pedi ajuda, qualquer coisa que me despertasse daquela falta de controle sobre mim e lá fomos nós para a sala de parto 4 horas depois de tudo começar. A picada da anestesia assemelhava-se a uma picada longa de abelha, mas qualquer dor era menor do que a que eu senti até aquele momento. E entrei em um estado de inércia, tudo passou a se mover devagar, meu corpo formigava e pesava 200 quilos, mas eu já não sentia mais dor, inclinei a cabeça em direção ao enorme relógio de parede na minha frente e logo chegou o papai, paramentado com uma roupa laranja, câmera na mão, olhos curiosos, mãos rápidas e sem destino. Foi muito rápido: veio o sono, o enjoo, a emoção. Alguém falou: 07:06 da manhã e procurei o relógio com o olhar. Você chorou. Um chorinho leve, sentido. E alguém te colocou na minha frente pra que eu pudesse te ver. Chorei, bebê. Você que já era parte de mim agora tinha um rosto, uma forma. O papai ficou com você até que te liberassem para que eu pudesse te ver melhor. E a enfermeira te trouxe, caladinho de touca azul e te colocou no meu colo, tão perto que não conseguia focar em seu rosto. Fotos, sorrisos, papai, formigamento, enjoo, lágrimas, fotos, sono. Te colocaram no meu seio e lá você ficou tentando aprender a mamar enquanto eu absorvia aquele momento lutando contra o efeito de toda aquela morfina passeando em mim, que me acalmava, me enjoava, me tirava um pouco do senso de realidade e sonho. Levaram você. Apaguei. Acordei umas cinco horas depois, boca seca, sala escura, cadê todo mundo? E me levaram para te conhecer melhor desta vez, você anjo, vestido de branco e azul, sonado e sereno. Apaixonei-me naquele instante.

domingo, 13 de abril de 2014

O Mundo é Azul

Lá pela décima oitava semana eu comecei a sentir. Mas não sabia direito ainda se era você ou se eram apenas os movimentos peristálticos de toda digestão. Eu esperei algo mais claro, mais mágico, e essa sensação só veio duas semanas depois, quando percebi que os seus chutinhos começariam a fazer parte da nossa relação. E aí eu ficava bem atenta cada vez que me aquietava em algum canto, porque eu sabia que logo sentiria você se acomodando dentro de mim em um movimento ainda lento e sutil que me causava um pouco de cócegas, estranhamento e muito da emoção represada em mim por algum motivo. O seu pai começou a conversar com você pelo meu umbigo, como se ele fosse alguma espécie de microfone, sabe, como se o som que ele emitisse ali chegasse mais claro até você. E quando você ficava, sei lá, umas duas horas sem se mover já me plantava uma pulga atrás da orelha com medo que algo estivesse te acontecendo aqui dentro que eu não pudesse ver ou sentir. E o seu pai, bobo como sempre, balançava minha barriga de um lado pro outro tentando te acordar do soninho do momento, até que você desse algum sinal de vida e acalmasse nosso coração ainda tão novo pra administrar tudo que está acontecendo.
Sabe, eu não lembro mais quem eu era antes disso tudo começar, sinto saudades de uma meia dúzia de coisas bobas que percebi não fazerem diferença na minha vida. Só sei que já sinto um medo danado de alguma coisa te acontecer, principalmente por minha culpa, seja por algo que eu comi ou bebi, por algum comportamento não recomendado, por me expor ao mundo que vai te receber em algumas semanas, como se ele fosse grande demais pra acolher suavemente um serzinho tão frágil como você. O pânico que sinto cada vez que cruzo o portão da minha casa sem ninguém para me segurar se eu ameaçar cair na primeira esquina, é resposta de algo bem maior que está acontecendo aqui dentro de mim há algumas semanas e que eu estava levando como algo paralelo. O fato é que você ocupou todos os meus espaços, esticou minha barriga a um nível nunca visto, subiu os ponteiros da balança da farmácia a nada que eu possa comparar, mexeu com minha cabeça tão prática e objetiva e me transformou num pote de manteiga esquecido em cima da mesa. Minha sensibilidade sempre tão à flor da pele se transformou em fragilidade e hoje tenho medos que nunca imaginei que deixaria entrar na minha vida. Meu mundo cor de rosa cheio de irmãs, sobrinhas, amigas e gatinhas de estimação foi se tornando azul um pouco a cada dia, primeiro nas roupinhas que começamos a escolher, depois no quarto, nos móveis, em cada detalhe que estamos preparando pra te receber. E é tão estranho, sabe, quando pego suas roupinhas tão pequenas e frágeis e levanto diante dos meus olhos, eu sempre me pergunto se vou saber o que fazer quando tiver que colocar você dentro dela, se vai ser natural como todos me dizem que será ou se vou chorar uma meia dúzia de vezes com medo de te machucar. E eu fico olhando aqueles brinquedos e imaginando como eu, tão mulherzinha que sou, vou conseguir sentar no chão com você e brincar de luta, de bola, de bonecos e de todas essas brincadeiras do universo masculino que nunca fizeram parte da minha vida. Seu pai sempre me acalma e fala que está aqui pra me ajudar com isso. E eu só consigo pensar em como será. 
Meu amor, hoje, dez semanas depois que comecei a te sentir dentro de mim não existe um só minuto que eu consiga levar minha vida paralelamente à sua existência, porque tudo que eu faço me remete ao que será melhor para você. Seu chutinho suave e sutil se transformou em algo muito maior que me traz sentimentos contraditórios, que me machuca e me acalma, me incomoda e me alivia a alma, porque sei que enquanto eu senti-los estará tudo bem por aqui. Dormir já não é mais como antes e sei que nunca mais será, assim como viver ou respirar, porque nada mais acontece sem que você seja parte. E eu só consigo tentar me preparar de alguma forma, através dos meus livros e da troca de experiências com quem já passou por isso para me tornar a mãe que você precisa que eu seja, sem tantas lágrimas e mimimis, sabendo exatamente o que fazer na hora certa. E que Deus me ajude nessa jornada.

domingo, 19 de janeiro de 2014

O Pequeno Alexandre e o Grande


Quando minha sobrinha Júlia nasceu, há quase oito anos, eu vivia uma fase meio egoísta da vida. Estava num emprego legal, ganhava mais que o esperado, ajudava minha família, mas queria mesmo era me divertir. Nunca havia pensado em casamento, filhos e todo aquele pacote do qual muitas meninas sonham desde cedo. Mas aí, no dia em que vi Júlia pela primeira vez, senti lá no fundo do meu coração que alguma coisa se modificava dentro de mim. Um instinto, um desejo adormecido, não sei explicar, eu só sei que quis ter aquela felicidade para mim em algum momento da minha vida. Nada poderia substituir a magia de ver uma criança crescendo um pouquinho a cada dia e te amando de uma maneira que nada no mundo poderia se comparar.  E ali eu soube que um dia eu seria mãe, de um filho meu ou de outro alguém, mas eu sabia que um dia eu teria alguém pra cuidar até que a vida lhe concedesse suas próprias asas. E seria homem. Seria um menininho de cabelo tigelinha pra quem eu ensinaria a cultura da minha família, meus valores, meus gostos pessoais, todas aquelas coisas que a gente sonha em um dia passar pra alguém. E quando meu casamento veio, meus sonhos se misturaram aos do meu marido. Ele me contou do seu amor pelas crianças e do desejo profundo de ter um filho e ainda de uma bela amizade que contaria a história do nome dessa criança. E naquele dia, meu filho de cabelo tigelinha ganhou um nome que eu nunca poderia contestar, porque ele carregava consigo uma bagagem de carinho, amizade e cumplicidade dividida entre o Hauryk e o Alexandre “Índio”, que se foi tragicamente cedo demais, mas que nunca saiu do coração de quem o conheceu.  
E como nada na vida acontece por acaso, ontem tivemos a certeza de que meu bebê é um menino, assim como sempre soubemos que seria. E no mesmo dia, em outra situação, tive a chance de conhecer através de uma fotografia antiga o dono dessa bela história.
E assim começa a história do meu Alexandre, meu menino, que já vem ao mundo abençoado por alguém muito especial. Seja bem vindo, meu filho.