quarta-feira, 20 de novembro de 2013

O Coraçãozinho

E aí a ficha caiu. Uma coisa é fazer xixi num copinho, mergulhar uma fitinha lá e interpretar que duas linhas vermelhas juntas significa que tem alguém nascendo dentro da sua barriga. Uma coisa é colher um pouco de sangue e saber que aqueles números todos um ao lado do outro quer dizer que seu corpo está produzindo um hormônio que só produziria se tivesse um bebê dentro dele. Outra coisa é ver. Eu até esqueci que estava sentada em uma cadeira ginecológica, seminua, com um homem desconhecido sentado ao meu lado mexendo um transdutor bem no meio das minhas pernas. Eu só olhei pro monitor à minha frente, coração disparado, e esperei. Logo ele me explicou que aquela sombra mais escura era o saco gestacional, a bolsinha que ia abrigar o bebê ao longo da gestação e que aquela bolinha branca no canto direito da tela era ele. Meu bebê. Ele parece um feijãozinho, sabe, tem aquele formato comprido e arredondado e pisca bem no meio do seu corpinho. E aí o médico falou: "Quer ver o mais legal desse exame?" Eu não conseguia tirar o sorriso bobo da cara e só balancei a cabeça dizendo que sim. E ele logo aumentou o volume para eu ouvir o melhor som que ouvira em toda a minha vida: o coração dele. Batia rápido, muito rápido, num compasso ritmado, continuado. Escorreguei minha mão esquerda para o lado e peguei na mão do meu marido que olhava para a tela tão paralisado quanto eu. E naquele momento eu entendi que era verdade, que embora minha barriga ainda estivesse tão igual a sempre, os enjôos não tenham me acometido no meio das refeições e tudo pareça ser o mesmo de antes, nunca mais será. Meu bebê existe e está aqui, crescendo saudável (graças a Deus!) dentro de mim um pouco a cada dia. Agora é de verdade, eu preciso viver essas 40 semanas sabendo que elas serão únicas e que ao final delas eu receberei o melhor presente de todos os existentes.
Saímos de lá meio pasmos, embasbacados, olhamos um para o outro buscando alguma explicação para aquele turbilhão de sentimentos que nos invadiam ao mesmo tempo, meio sem saber se estamos prontos para aquilo ou se um dia estaremos. Ele diz que sim. Eu acho que eu nasci pronta, mas demorei pra entender que havia uma mãe adormecida dentro de mim. Fiz até terapia pra descobrir o que eu realmente queria, se estava lidando com um caso de egoísmo extremo ou tudo era apenas medo de dar um passo adiante. A verdade é que eu deixei a decisão ao cargo da natureza e não me arrependo da minha escolha. Pensando bem, eu sempre fui meio mãe de todo mundo, desde que me entendo por gente me vi querendo cuidar das pessoas que eu amo, do meu jeito, trazendo todo mundo pra debaixo das minhas saias num instinto de proteção. Escolhi ser mãe dos meus pais e absorver deles grande parte dos problemas, porque julguei aguentar mais do que eles. Escolhi ser mãe das minhas irmãs e me envolvi nas suas escolhas, nos seus caminhos, opinei, discordei, briguei, ajudei, patrocinei, comemorei junto com elas no final. Escolhi ser mãe dos meus gatos e experimentei o protecionismo e a desconfiança de que todas as outras pessoas pudessem lhe fazer mal. Escolhi ser mãe do meu marido, cuidando da sua roupa, do seu jantar, dos seus exames de saúde, das suas dúvidas, anseios e de todas as alegrias. É, eu acho que nasci pra ser mãe. Mas agora, vai ser de verdade. Logo logo vai existir um serzinho frágil e totalmente dependente de mim que vai vir mais para me ensinar do que o contrário. Com ele, o que ainda havia de egoísmo dentro de mim vai pelos ares e vou experimentar algo muito diferente de tudo que já passou aqui por dentro. Eu sei. Mas mal posso esperar que esse dia chegue.

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