Dizem que você se sente mãe no momento em que
descobre que tem um ser crescendo dentro de você. Comigo não foi assim. Na
verdade minha vida mudou desde aquele instante em que as duas listrinhas
vermelhas apareceram pra mim. Eu não podia mais beber, comer bobagem, escolher
quando dormir, chorar quando estivesse triste, eu já não tinha mais controle do
meu corpo e das minhas emoções, as coisas simplesmente aconteciam sem que
eu conseguisse explicar por que. Mas me sentir mãe mesmo, acho que nem quando eu
vi o feijãozinho piscando na tela da ultrassonografia: eu me senti coadjuvante
de um milagre divino. Entender como duas células vão se transformando em uma
pessoa assim, de carne, osso e sentimentos, vai além da nossa capacidade
intelectual. É coisa que só Deus explica. Eu acho que a mãe nasceu dentro de
mim junto com aquela primeira lágrima não explicada descendo do meu rosto, no
momento em que aquele médico me olhou com olhos de dúvida e me falou que era
melhor procurar um hospital para explicar aquele conjunto de coisas que eu
estava sentindo. E eu chorei copiosamente de medo, puro medo de que meu filho
fosse embora antes mesmo de chegar. E meu coração não se acalmou enquanto não
vi a imagem dele no ultrassom, saudável e ativo, crescendo mais rápido do que eu
poderia imaginar. Ele girava em torno dele mesmo com sua coluna cervical
brilhante e seus bracinhos e perninhas ainda curtos, mas já tão rápidos e
vivos. Ali eu entendi que a mãe que eu preciso ser já existe. E ela sofreu de
medo só com a possibilidade de perder aquele serzinho que ela nunca viu diante
dos olhos, mas que é parte dela como nada nunca foi na vida. E ali nasceu uma
mãe. Para nunca mais voltar.
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